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Sobre

por Jorge Candeias, em 01.09.16

Fantástico Algarve, as origens

 

Este site começou a nascer num comentário de leitor.

Há uns anos, que já se vão alargando, alguém, comentando a minha noveleta Littleton, protestava amargamente por ela não ter rigorosamente nada a ver com Portugal, que os escritores portugueses papaguearem assim o que vem de fora não tinha interesse nenhum. Lembro-me bem de ter lido o protesto e pensado com os meus botões "tá boa." É que uma das coisas que mais inspirou esse conto foi precisamente Portugal ou, para ser mais preciso, o Algarve. Ou, para ser ainda mais preciso, a combinação de Vilamoura com uns "safaris" que se faziam (ainda farão?) pelas serras e barrocal algarvios em jipes pintados de zebras.

Entenda-se: o leitor tinha razão, à maneira dele. O conto passa-se numa lua dum planeta distante, num empreendimento turístico que simula o Oeste americano. À superfície o ambiente é só isso, e só pode ser isso para quem não conheça a experiência turística falsificada e transplantada, exemplarmente ilustrada por esse corpo estranho chamado Vilamoura ou pelo africanismo de plástico dos safaris na serra algarvia. Daí que eu depois do "tá boa" tenha pensado algo como "um dia alguém que conheça minimamente o Algarve ainda há de tentar descobrir o que dele existe no fantástico que cá se faz."

Mas essa ideia, como tantas outras, depressa adormeceu por baixo do peso dos interesses imediatos. Até que num momento de ócio, neste mês de julho de 2016, me lembrei de fazer uma pesquisa pela palavra "Algarve" no Bibliowiki.

E o resultado chocou-me.

Sim, a palavra deixou-se encontrar. Aparece no nome dum periódico e aparece associada a pessoas. A tradutores, a artistas, a escritores. Mas aparece pouquíssimo. Na altura da pesquisa, havia já no site mais de 4 mil autores. Destes, portugueses eram uns mil e cem.

Algarvios?

Dez.

Dez!

Pensei que não podia ser, que tinha de haver mais. Que mesmo com o autêntico ostracismo cultural a que o Algarve tem sido historicamente votado, mesmo com a falta, até recentemente, de ensino superior, que como se sabe tende a servir de polo agregador e estimulante da produção cultural, mesmo com a falta de editoras próprias dignas desse nome, mesmo com a fraca distribuição que, durante muitos anos, fez com que muitas coisas não chegassem cá e de cá não saíssem, não era possível que os algarvios ligados de alguma forma à literatura fantástica não fossem mais que dez.

Foi então que me lembrei da velha ideia. Sim, alguém devia investigar o que há de algarvio na literatura fantástica feita cá ou por gente de cá, mas o primeiro passo para isso é saber que literatura é essa. Alguém teria de dar esse primeiro passo, e esse alguém podia perfeitamente ser eu.

Afinal, já tinha parte do trabalho feito. No Bibliowiki, precisamente.

 

 

Mas... fantástico? Que fantástico?

 

Na teoria literária, o fantástico é um género próprio, bastante bem definido e razoavelmente restrito. Nada tem a ver com coisas como ficção científica, horror, fantasia ou até realismo mágico, maravilhoso, fábula ou surrealismo.

Contudo, há muito que as pessoas que trabalham em vários dos géneros literários não realistas (por oposição aos realistas: o policial, o romance histórico, o romance psicológico, etc.) sentem a necessidade de encontrar um termo que englobe todas essas formas de contar histórias que têm numa certa oposição ao realismo o cimento que as une. Essas pessoas encontraram na palavra "fantástico" uma forma prática de agrupar tudo isso, e a palavra é comummente usada fora da Academia com esse significado. Fantástico é, pois, a cúpula que cobre não só o fantástico propriamente dito, mas também todas as restantes literaturas de fundo não realista, das mais obscuras ou marginais (como a ficção científica ou o horror, com demasiada frequência atirados para a fossa das "paraliteraturas") às mais canónicas e "respeitáveis" (como o realismo mágico ou mesmo o fantástico propriamente dito).

Eu sou uma dessas pessoas. Trabalho sobretudo na tradução de fantasia, sou principalmente apreciador de ficção científica e, embora escreva coisas variadas, é na FC que me sinto melhor. Sou uma dessas pessoas. Por conseguinte, é nesse sentido lato que a palavra "fantástico" é aqui usada.

 

 

E Algarve? Que Algarve?

 

Sim, também o balizamento do Algarve tem o seu quê de problemático. É algarvio só quem cá nasce ou também quem cá vive? É algarvio quem, cá tendo nascido, viveu a vida inteira noutras geografias? E quem, nunca cá tendo vivido, recebe em casa, na família imediata, os elementos culturais que formaram os pais?

Optei também aqui por ser razoavelmente abrangente. Para efeitos deste site, algarvio é quem nasce no Algarve, viva onde viver, e também quem, não tendo nascido na região, vive nela ou pelo menos nela passou parte significativa da sua vida. Vir de férias todos os anos não conta. Viver três, quatro, cinco anos ou mais já conta. Os pais? Bem... tendo em conta a dificuldade que muitas vezes é saber de onde são originários os autores propriamente ditos, esperar conseguir essa informação para os pais é exigir demasiado da sorte. Portanto, também ficou de fora.

Quem for depois verificar o que existe de algarvio nestas histórias deparará com outro problema: o Algarve não é coisa única nem parada no tempo. A serra e o barrocal não são o mesmo Algarve do litoral, o Barlavento tem diferenças relativamente ao Sotavento, o Algarve pós década de 1960, altura da primeira explosão turística, e sobretudo pós 1975, ano em que a região começou a absorver muitos milhares de novos habitantes vindos de África, é bastante diferente do Algarve anterior. Segundo a lógica, aquilo que cá se escreve também deverá sê-lo.

 

 

E a qualidade, pá?

 

A qualidade não é um fator.

É verdade que, sob um certo ponto de vista, será inútil estar a compilar obras e autores que, com um grau elevado de certeza, serão rapidamente esquecidos e portanto são na prática irrelevantes. É inteiramente possível que quem acabar por fazer o tal estudo do que de algarvio existe nas obras de quem por cá escreve fantástico acabe por ignorar obras e autores que não tenham um grau mínimo de relevância cultural, quer tenham escrito muito, quer tenham escrito pouco.

Por outro lado, também é possível que não o faça. Também é inteiramente legítimo e possível que se pense que, porque a qualidade literária vem normalmente acompanhada por uma marca autoral forte, por idiosincrasias próprias que podem tender a abafar o caldo cultural subjacente aos autores, e portanto o seu algarvismo, será nas obras e autores de menor qualidade que essa cultura subjacente se revele de forma mais pura. É, portanto, tão possível que quem se vier a servir dos dados aqui compilados esteja mais interessado nos autores mais obscuros do que nos mais relevantes como o contrário.

Assim, e também porque o relevo dos autores vai muitas vezes mudando com o tempo, é contraproducente, em compilações deste género, estar a entrar em linha de conta com a qualidade. Idealmente, há que reunir tudo. Ou, na prática, há que reunir tudo o que for possível encontrar. É esse o meu objetivo.

 

 

Notas finais

 

Este site contém, portanto, tudo o que consegui encontrar até ao momento. São muito bem-vindas todas as informações adicionais que me apontem novos autores, novas obras ou novas edições. Também são bem-vindas boas imagens que colmatem as lacunas que vão existindo nas capas e nas fotos dos autores. Os comentários estão abertos e disponíveis e também me podem contactar pelo twitter e por email: os dois botões respetivos estão no topo do site, acima do cabeçalho.

E sim, embora pareça um blogue, isto é um site. A publicação de uma entrada no dia x não implica que a partir desse dia ela fique tal como foi publicada; pelo contrário, todas estão abertas a todos os acrescentos e correções que se façam necessários.

Por fim, convém deixar inteiramente claro que a reutilização da informação aqui apresentada é livre, embora convenha não se copiar textualmente as notas, que são de minha autoria e só me devem comprometer a mim. Agradecia apenas que quem e quando os reutilize me informe do facto. Um agradecimento também seria simpático.

E obrigado pela atenção e interesse.

Jorge

 

Adenda: Pouco depois da primeira publicação deste texto fui confrontado com um caso particular: uma autora proveniente de outro ponto do país que estuda na Universidade do Algarve. Pelo critério de tempo de residência acima exposto contaria como algarvia, mas a verdade é que o ambiente universitário, em particular se se é estudante, funciona em grande medida como uma bolha. A interação entre os estudantes e a envolvente pode reduzir-se quase a zero, pode ser quase como um longo veraneio. Por outro lado, também pode resultar numa imersão total. Depende das pessoas e das circunstâncias. Ou seja: o caso é bicudo e deu-me que pensar. Acabei por decidir incluir também casos destes, precisamente porque o que acontece depende das pessoas e das circunstâncias e, não conhecendo estas e aquelas, não posso decidir aprioristicamente, e sem qualquer indicação de que assim seja de facto, que os autores se encerram na bolha universitária e nada absorvem do Algarve que os rodeia. Pode ser que sim, pode ser que não. Só a obra o dirá.

 

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publicado às 01:21


5 comentários

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De pco69 a 01.09.2016 às 15:38

teste para comentar
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De pco69 a 01.09.2016 às 15:50

nota inicial) Podes apagar o "teste para comentar" e esta nota

Sou algarvio de nascença. Saí daí com 6 anos e regresso todos os anos para férias. Nao sou autor, mas apenas leitor. Caí neste post a partir scoop-it do post dos filhos-de-athena.

Sou da fronteira da praia com o barrocal e vi passar muitos desses safaris. Antigamente com UMM zebrados e agora com uma espécie de jipes de dois lugares de rodas baixinhas, onde o pessoal tem de levar umas mascaras para não comer o pó dos carros da frente.

A ver se obtenho algumas das obras indicadas, visto que juntar fantasia com Algarve, parece-me uma curiosa junção.
É a chamada curiosidade relativa às nossas origens :-)

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De Jorge Candeias a 02.09.2016 às 14:41

Sim, essa é outra utilidade deste site, mesmo para mim. Várias destas obras desconhecia ou não sabia que continham algum fantástico. E uma já foi comprada por causa de ter feito isto: a antologia dos 7 contos ilustrados.
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De João Madureira a 16.10.2016 às 17:52

Saudações.

http://www.dn.pt/mundo/interior/cidadaos-estao-desligados-da-politica-porque-o-que-o-sistema-propoe-e-pobre-5443045.html

Vamos criar um Partido da Rede português?
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De João Madureira a 16.10.2016 às 17:54

O meu mail é joaogmadureira at gmail.com

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